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Histórias das Vidas de Sr. José Francisco Leopoldino e Terezinha Pereira de Jesus 

 

Conteúdo

 

Introdução

A Família Leopoldino da Fazenda do Baú

Descendência pelo lado paterno de Sr. José

Descendência pelo lado materno de Sr. José

Leopoldino – O Nome da Família

A Família Pereira da Silva

Mineiros viram Goianos

O Cenário da Vida

Brasília

Goiânia

 

Tabela de Registros de Nascimento

 

Introdução

José Francisco Leopoldino e Terezinha Pereira de Jesus são os meus sogros. As vidas deles se desenvolveram no Brasil Central. Aparecem de um passado pouco conhecido de trabalhadores campesinos de descendência mista – entre Europeu, índio da América do Sul e escravo Africano. Não se sabe a história certa de seus antepassados. Está perdida nos contos que tratam do descobrimento pelos Europeus do Brasil, no ano 1500, e as histórias dos bandeirantes e os que lhes seguiram, tomando as terras e fundando as povoações e as fazendas durante os séculos seguintes.

 

A inferência continua até mais ou menos nos meados do século dezenove. São poucas as evidências em documentos das vidas de brasileiros humildes, e as que existem são, às vezes, difíceis de descobrir. Ainda, podem ser de interpretação duvidosa, ou contraditória.

 

O relato que segue tem valor na história brasileira, porque mostra como pessoas simples se esforçaram para encontrar uma vida melhor, beneficiando assim os seus filhos e netos. Deram duro, práticamente sem ajuda de ninguém, frequentemente em situações difíceis, sem estudos, sem muitas oportunidades, as vezes sem encontrar trabalho, e sempre com pouco dinheiro em mãos. Oxalá que apareçam mais exemplos de histórias de vidas como estas, para melhor documentar como a sociedade brasileira atual veio aparecendo de um passado anónimo.

 

Este documento foi escrito inicialmente em inglês, com tradução posterior a português. O original aparece aqui. Tive a ajuda da minha esposa na tradução, a qual agradeço, e muito, mas as deficiências e erros ficam da minha responsabilidade. Desde logo, peço ao leitor sua compreensão. Mas quem não gostar, que aprende inglês!

 

Por favor que entre em contato comigo aqui quem tiver correções, informações adicionais, ou comentários. 

 

A Família Leopoldino da Fazenda do Baú

José Francisco Leopoldino – daqui para frente ‘Sr. José’ – nasceu no dia 5 de Março de 1928. Era mais um filho de uma família que ia crescendo rápidamente. As evidências do seu nascimento vem de um registro no cartório civil de Lagoa Formosa, Minas Gerais. Nem o registro do nascimento dele, nem os dos demais irmãos foram feitos pelos pais, mas quando sete dos irmãos tinham entre dezoito e vinte e seis anos de idade, eles mesmos foram ao cartório de Lagoa Formosa para fazer suas declarações. É possível que foram motivados pela necessidade de cumprir com a legislação sobre o título eleitoral. Aqui está uma tabela com os fatos principais dos registros.

 

Cada registro inclui informações sobre as circunstâncias dos nascimentos e os nomes dos pais e avós. Tem discrepâncias significantes entre eles, indicando que os registrantes nem sempre tinham certeza dos dados de seus próprios nascimentos, nem dos nomes reais dos pais. O escrivão pedia as informações mas não tinha como exigir dados corretos. Ainda assim, tudo indica que cada registrante forneceu o que acreditasse ser a verdade. Todos os registrantes eram pouco alfabetizados, mas somente Francisca Maria – ‘Nené’ – não sabia assinar o seu nome.

 

Sr. José e os seus oito irmãos:

1.      Mário José Rodrigues – ‘Marico’ – nasceu 28/3/1921 morreu 25/4/2007

2.      Diomara Cândida de Jesus – ‘Diomara’ ou Guiomar’ – nasceu 24/6/1922, morreu 21/11/1973

3.      Cândida Maria de Jesus – ‘Cândida’ – nasceu 1926

4.      José Francisco Leopoldino – ‘Sr. José’ – protagonista desta história

5.      Francisca Maria de Jesus – ‘Nené’ – nasceu 16/9/1930 morreu 13/12/1973

6.      João Francisco Leopoldino – ‘Zico’ – nasceu 1932

7.      Manuel Francisco Leopoldino – ‘Neca’ nasceu 1935

8.      Otildes Francisco Leopoldino nasceu 1939

9.      Norziro Francisco Leopoldino nasceu 1941

 

Quando, aos 22 anos de idade, ele fez o registro de seu próprio nascimento, Sr. José declarou que ele nasceu na Fazenda Baú, no distrito de Lagoa Formosa. Era o quarto dos nove irmãos, seis rapazes e três moças. Sobre os seus pais, existem algumas dúvidas. Sr. José falou que a mãe dele era ‘Maria Francisca Cupim’, mas é provável que o nome certo dela era Maria Francisca de Jesus, e que ‘Cupim’ era apenas um apelido. Além dos dois sentidos óbvios da palavra ‘cupim’ (em relação do bicho de campo, e do gado), ‘Cupim’ é um sobrenome comum na área de Lagoa Formosa, e é possível que Maria Francisca tinha alguma associação com a família Cupim – talvez fosse uma empregada domestica. Agora é impossível descobrir a verdade. Pode ser que a mãe de nove crianças era casada na igreja, mas ela nunca casou no civil; todos os sete registros de nascimento dos filhos dizem que quando morreu a mãe, no dia 6 de maio de 1950, ela era ainda solteira.

 

A Mãe de Sr. José:

Maria Francisca Cupim ou Maria Francisca de Jesus, morreu 6/5/1950

 

Nenhum dos registros de nascimento leva o nome do pai (nem os nomes dos avós paternos). Parece que, uma vez feita a declaração de que a mãe era solteira, não era permitido registrar o nome do pai. Dois dos irmãos de Sr. José, João Francisco – ‘Zico’ – e Norziro, contam que quando eram pequenos eles levavam almoço para seu pai no trabalho. Evidentemente os filhos sabiam perfeitamente quem era o seu pai.

Descendência pelo lado paterno de Sr. José

Então, quem era o pai de Sr. José? O irmão mais velho, Mário José – ‘Marico’ – declarou que o sobrenome dele era ‘Rodrigues’. Ele nasceu em 1921. Marico disse que o pai dele era José Jacinto Rodrigues – conhecido como ‘Zeca Jacinto’, e, aparentemente, ele era também o pai dos outros irmãos. Todos tem traços familiares fortes; todos são morenos. Ainda mais, tem uma fotografia de Maria Francisca Cupim e Zeca Jacinto juntos, como casal (veja foto acima).

 

Quem tiver oportunidade, pode ser interessante conversar com Zico e os seus irmãos, Neca, Otildes e Norziro, para perguntar mais detalhes sobre os tempos que passaram na Fazenda Baú junto com seus pais quando eram crianças.

 

O Pai de Sr. José:

José Jacinto Rodrigues – conhecido como ‘Zeca Jacinto’, faleceu aproximadamente em 1960

 

Avós paternos de Sr. José:

Jacinto Rodrigues Magalhães

Cândida Mota

 

Bisavós paternos de Sr. José:

Manuel Rodrigues Magalhães

Desconhecida

 

Segundo Zico, o avô paterno de Sr. José era Jacinto Rodrigues Magalhães; ele tinha um aspecto oriental e pele clara. Sua mulher era Cândida Mota. O pai de Jacinto Rodrigues Magalhães era Manuel Rodrigues Magalhães e, segundo Zico, ele morava numa fazenda em Monjolinho, um vilarejo perto da Fazenda Baú, e era bem de vida. Não se sabe quando nasceram, mas, baseado na data de nascimento de Marico (1921), pode ser que José Jacinto Rodrigues nasceu mais ou menos em 1900 e, se cada geração representa 25 anos, Jacinto Rodrigues Magalhães teria nascido em 1875 e o nascimento de Manuel Rodrigues Magalhães seria por ai em 1850.

 

 

Os primeiros Europeus apareceram em Monjolinho – atualmente Monjolinho de Minas – mais ou menos em 1840, e a família Magalhães fosse talvez entre as primeiras a chegar, mas, como há poucas informações, não se sabe com certeza. A primeira evidência segura aparece somente em 1948 quando ‘... teve início a construção da capela pelo pedreiro Marico Jacinto, que inclusive foi um dos primeiros moradores do lugarejo...’ Também fala que ‘No ano de 1948, aparece o Sr. Mário José da Silva (Marico), pedreiro que veio para dar início à construção da capela, e, em seguida outros moradores’[1].

 

Não tem a menor dúvida de que este ‘Marico’ é o irmão de Sr. José, porque Sr. Antônio Graciano, um morador idoso de Lagoa Formosa, quem conheceu tanto Marico como Sr. José quando eram rapazes, confirmou que foi Marico quem construiu a capela de Monjolinho. É, então, interessante ver que Marico era conhecido como ‘Marico Jacinto’ e também como ‘Mário José da Silva’, não obstante ele mesmo registrou seu nome como ‘Mário José Rodrigues’. É um bom exemplo das dificuldades que as vezes encontramos na pesquisa da genealogia no Brasil.

 

Em 2010 Monjolinho é um lugarejo bonito, perdido no final de estradas de terra vermelha num vale cortado no chapadão que domina esta região de Minas Gerais. Depois das chuvas é uma terra fértil para a agricultura, hoje em dia importante para café, mas também tem sua produção de milho, feijão e arroz, e é bom para pecuária. A cidade de Monjolinho depende de Lagoa Formosa, que fica a uns vinte quilómetros de distância. Até a época em que Sr. José e os seus irmãos moravam no distrito, transporte era a pé, a cavalo ou em carro de boi. Existia, aparentemente, uma só loja em Monjolinho, e era necessário viajar para Lagoa Formosa sempre que os moradores precisassem de compras maiores, ou se quissesem vender algum artigo de sua produção.

 

A maioria do povo trabalhava, diretamente ou indiretamente, nas fazendas. A vegetação primitiva da área era cerrado com alguns bosques com árvores grandes nos vales, mas com o passar dos anos o cerrado foi se convertendo a campo aberto e as árvores grandes foram aproveitadas para construir casas, e para outos usos.

 

O dia começava antes do nascer do sol, com o cantar do galo, ou com os animais mexendo nos arredores. Depois do café da manhã os homens saiam para o serviço, o que variava segundo a estação do ano – semeadura, safra, e assim por diante. O almoço era, de costume, as sobras da comida do dia anterior, que comiam frio. Depois do jantar, ascendiam-se as lamparinas, ou, mais tarde, os lampiões, e sentavam-se para bater papo, jogar cartas ou compartilhar outras atividades parecidas. De vez em quando, durante o ano, haviam festas em Monjolinho onde, depois da missa na igrejinha, tinha comida, música e dança, e sempre bebida. As vezes divertimento passava rapidamente a briga – e o povo sempre tinha algum tipo de arma por perto.

Descendência pelo lado materno de Sr. José

Marico se registrou como ‘Rodrigues’, que foi, aparentemente, o sobrenome do pai dele. Por outro lado, os seus cinco irmãos têm o sobrenome ‘Leopoldino’, e pelo menos duas das três irmãs se chamavam ‘de Jesus’. A evidência indica que o pai de Maria Francisca Cupim era Francisco Leopoldino e o nome da sua mãe era Francisca Maria de Jesus. Já que Maria Francisca nunca se casou (pelo menos no civil), era natural, e lógico, que os filhos dela ficassem com o sobrenome do avô e as filhas com o da avó. Era este o sistema normal na igreja Católica da época, e existe na sociedade brasileira até hoje[2].

 

A mãe de Sr. José:

Maria Francisca Cupim ou Maria Francisca de Jesus, morreu 6/5/1950

 

Avós Maternos de Sr. José:

Francisco Leopoldino

Francisca Maria de Jesus (ou Francisca Pereira de Jesus) (veja Tabela)

 

A evidência de que duas das três irmãs de Sr. José, Diomara e Cândida, tinham realmente o sobrenome ‘de Jesus’, vem de informações verbais de família, mas, infelizmente, ainda não foram encontrados os registros de nascimento delas. O único registro encontrado para as mulheres é o de Francisca Maria (‘Nene’) e, ainda quando ela declarou que o nome da sua mãe era Maria Francisca de Jesus, ela registrou o nome dela mesma como ‘Francisca Maria Pereira’. Para complicar a situação ainda mais, existem vários outros versões para os nomes dos avós maternos entre os sete registros encontrados: ‘Moreira’ e ‘da Silva’, além de ‘Pereira’ (veja a Tabela), e ‘Coelho’ também é um nome mencionado por algumas pessoas. Pode ser que estes, talvez especialmente ‘Pereira’ e ‘da Silva’, eram mesmo nomes de alguns membros da família, mas parece impossível agora estabelecer os fatos. De qualquer maneira são todos nomes portugueses típicos.

 

Maria Francisca Cupim era empregada doméstica e provávelmente ela trabalhava na Fazenda Baú. Sabemos pouco da sua vida, mas o fato que ela morava na Fazenda Baú pelo menos desde 1928 (nascimento de Sr. José) ate 1941 (nascimento de Norziro), um período de treze anos, indica que ela tinha trabalho seguro e provávelmente que era uma funcionaria de confiança. Parece provável que ela e os seus filhos morassem juntos com os pais dela, porque todos os filhos tinham uma boa ideia dos nomes dos avós maternos; segundo Zico, o avô materno era um ‘carpinteiro preto’.

 

Alguns dos filhos registraram que a mãe era do povoado de ‘Chumbo’, um outro distrito de Lagoa Formosa, que tem o seu cartório próprio (que vale a pena visitar). Como já foi dito, segundo os relatos de vários dos seus filhos, Maria Francisca Cupim morreu no dia 5 de maio de 1950[3]. Se ela tivesse vinte anos quando o seu primeiro filho (Marico) nasceu, teria morto com aproximadamente cinquenta anos de idade.

 

Leopoldino – O Nome da Família

Geralmente é impossível descobrir com certeza a origem de um sobrenome de família, mas é sempre interessante investigar. ‘Leopoldino’ soa europeu, mas não soa português. Uma pesquisa rápida na lista telefónica de Lisboa indica que o nome existe la na capital lusa – tem 25 pessoas chamadas ‘Leopoldino’ e 179 ‘Leopoldina’[4]. O nome provávelmente vem de Maria Leopoldina, quem nasceu em 1797, filha de Francis II de Áustria, o então Santo Imperador Romano. Em 1817 Maria Leopoldina embarcou para o Brasil, onde casou com Dom Pedro de Alcântara, o futuro rei Dom Pedro IV de Portugal e Imperador Dom Pedro I do Brasil. Ela falava fluentemente seis idiomas, se fascinava com as ciências naturais, e têve um papel importante no processo da Independência do Brasil, o que ocorreu em 1822. Morreu no Rio de Janeiro com somente 29 anos de idade: ‘Ate hoje Leopoldina é honrada por seu bom caráter. Era muito estimada pelo povo brasileiro por sua bondade e atos de caridade, e assim contribuiu muito ao prestigio do seu marido Dom Pedro, o primeiro Imperador do Brasil’[5].

 

No extremo sudeste de Minas Gerais, no ano em que Maria Leopoldina embarcou para o Brasil, fundou-se um lugarejo chamado ‘Feijão Cru’. Os anos foram passando e Feijão Cru foi crescendo ate que em 1838 contava com 467 Brancos, 225 Forros (escravos livres) e 602 Escravos, em 135 moradias[6]. Em 1855 mudou-se o nome do local para ‘Leopoldina’, e hoje é um centro regional com uns 50.000 habitantes. Se bem que a maioria das cidades de Minas Gerais foram fundadas por motivos da mineração (especialmente como garimpos de ouro), é diferente o caso de Feijão Cru; sua base era sempre a agricultura. Desde a década dos 1860 a cidade Leopoldina virou-se um produtor importante de café.

 

A colonização do interior do Brasil devia-se à migração de gente desde a costa, seguindo os passos dos bandeirantes, quem buscavam ouro, índios para escravizar e, desde 1725, diamantes. Por exemplo, Lagoa Formosa, que fica a uns 660 km ao noroeste de Leopoldina, foi fundada em 1858 (embora ja tinha alguns moradores antes desta data)[7]. Na medida que outorgavam sesmarias a indivíduos com bons contactos na corte, assim dando acesso a terras proprias para agricultura, era necessário a mão de obra para desmatar, cuidar dos animais e trabalhar a terra. Boa parte da economia brasileira dependia da mão de obra de escravos africanos mas a escravidão se fazia menos relevante durante o percurso do século dezenove ate sua abolição em 1888.

 

Inicialmente os escravos, índios e ‘forros’ teriam nomes simples, mas as exigências da administração do estado impunha um sistema mais formal de identificação, e daí a adoção de sobrenomes. Uma pessoa sem sobrenome poderia colocar um nome relacionado com a sua ocupação – por exemplo ‘Ferreiro’, ‘Pereira’ ou ‘Machado’, ou o nome de seu amo (ou o dono do terreno onde morava) – por exemplo ‘Rodrigues’ ou ‘Gonçalves’, ou talvez o nome do local de origem. Um caso interessante deste ultimo é o do Sr. Antônio Graciano, padrinho de um parente de Sr. José, quem, há muitos anos, mudou-se de Goiás para Minas Gerais. Era tão diferente o seu sotaque dos sotaques de seus vizinhos mineiros que lhe puseram o nome de ‘Antônio Goiano’. Se tivesse sido o caso de uma mulher, digamos ‘Antônia’, ela teria sido conhecida como ‘Antónia Goiana’. Um outro exemplo é o caso de uma moça de Natal (RN) que morava na Bahia; para diferencia-la de outras pessoas com o mesmo nome, era sempre conhecida como ‘Sônia Baiana’.

 

Não é difícil imaginar que um homem chamado, por exemplo, José, criado na cidade de Leopoldina, ficasse conhecido como ‘José Leopoldino’ depois de mudar para uma outra parte do pais. Pode ser que fosse assim que o sobrenome ‘Leopoldino’ surgiu no Brasil. Assim é possível que os antepassados da família Leopoldino, desta história, morassem e trabalhassem perto da cidade Leopoldina, e que mudassem, posteriormente, para o distrito de Lagoa Formosa.

 

A Imperatriz Maria Leopoldina faleceu em 1826. A povoação de Feijão Cru mudou o seu nome para Leopoldina em 1855. Francisco Leopoldino, o pai de Maria Francisca Cupim, nasceu, provávelmente, por volta de 1880. A teoria de que o sobrenome ‘Leopoldino’ originasse-se na cidade de Leopoldina se acomoda, então, à sequência dos fatos históricos. 

A Família Pereira da Silva

As informações disponíveis indicam que Terezinha Pereira de Jesus nasceu em 1938 numa casa antiga de estilo colonial na Fazenda Santa Rosa. A casa fica perto da aldeia Santa Rosa dos Dourados (ou simplesmente 'Sta. Rosa'), entre as cidades de Patrocínio e Coromandel, em Minas Gerais.

 

Seguindo o sistema da igreja Católica, bem que o sobrenome dos irmãos era 'da Silva', o nome de Terezinha era 'de Jesus', e é possivel que o nome de Mariazinha era tambem 'de Jesus'; não temos certeza. De qualquer maneira, daqui para frente chamaremos Terezinha simplesmente de ‘Dona Terezinha’ (ou ‘d. Terezinha’). Era a quarta de cinco filhos de Joaquim Pereira da Silva e Maria Cândida de Jesus. Seus irmãos eram Mariazinha, José, Augusto e Geraldo. Até que se sabe, todos nasceram na mesma casa.

 

Pais de d. Terezinha:

Joaquim Pereira da Silva, faleceu cerca de 1941

Maria Cândida de Jesus, nasceu cerca de 1908, faleceu cerca de 1948

 

Avós paternos de d. Terezinha:

José Pereira

Maria da Silveira

 

Avós maternos de d. Terezinha:

Pedro José Alexandre – ‘Pai Pedro’ – nasceu cerca de 1865

Maria Cândida da Silva

 

Irmãos de d. Terezinha:

Mariazinha Pereira da Silva (ou, talvez, 'de Jesus') – ‘Mazinha’ – nasceu cerca de 1933, faleceu cerca de fevereiro 1956

José Pereira da Silva – ‘Zezé’ – nasceu cerca de 1934, morreu cerca de 1973

Augusto Pereira da Silva, nasceu 29/8/1936, morreu cerca de 1963

Terezinha Pereira de Jesus – protagonista desta história

Geraldo Pereira da Silva, nasceu cerca de 1941

 

Joaquim era um capataz e boiadeiro, mas é possível que também tinha alguma terra própria. A Fazenda Sta. Rosa fica a uns cinco ou seis quilômetros longe da povoação de Sta. Rosa. O caminho de acesso mais fácil a Santa Rosa dos Dourados é uma estrada de terra vermelha de uns trinta quilômetros que vai ao sul desde Coromandel. Tem também uma outra estrada de chão, mais curta, que parte da estrada asfaltada (MG188) que liga Coromandel com a BR365, que vai de Patrocínio a Patos de Minas. Toda a área fica no vale agradável e fértil do Córrego Sta. Rosa, entalhado na grande chapada que faz o divisor de águas entre o Rio São Francisco, ao norte, e o Rio Parnaiba ao sul. Tanto em sua topografia como em sua agricultura, a área é semelhante à de Fazenda Baú, com produção de café, milho, soja, cana de açúcar e outros cultivos. A povoação compreende umas duzentas casas simples com cultivo de banana, mamão e flores nos jardins, e grandes mangueiras para dar sombra nos dias quentes de verão. Existe uma ou outra lojinha, e uns bares onde o povo toma cerveja ou refrigerante e bate papo. Desde há muitos anos existe, também, um cartório civil, uma igreja numa praça ampla, bordada de árvores, com um cemitério um pouco afastado. Há um ou outro telefone público e um serviço de ónibus que vai para Coromandel. Coromandel tem sua fama como um centro de produção de diamantes.

 

Tudo sobre Santa Rosa indica uma história respeitável em termos do desenvolvimento do Brasil. É difícil saber com precisão a idade da velha sede da Fazenda Sta. Rosa onde d. Terezinha nasceu, mas a sua estrutura é em base de postes e vigas de aroeira, com muros de gesso branco, e o telhado é de telhas vermelhas de barro. Pode ser que foi construída há uns cem anos.

 

Existe uma foto velha de Joaquim Pereira da Silva e toda a sua família, tirada em frente a uma casa ou galpão aproximadamente em 1942. Todo mundo está em linha; Joaquim, orgulhoso, segura Geraldo, seu filho caçula, no braço. É um homem de boa aparência vestido de boiadeiro – cinto largo, camisa de mangas curtas, lenço no pescoço e botas. Maria Cândida, com a figura de mãe de cinco filhos, está ao seu lado, com vestido feito em casa e sapatos finos. Mariazinha também usa sapatos, mas os seus irmãos estão descalços. A pequena d. Terezinha tem um vestidinho feito do mesmo tecido do da mãe dela. É uma família morena, mas, ao lado de Joaquim, está um homemzinho preto, vestido de terno claro e um chapeu de alas largas, evidentemente uma pessoa de confiança. É provável que a foto fosse tirada numa visita a Santa Rosa dos Dourados, ou talvez numa cidade vizinha maior, durante alguma festa, por um fotógrafo itinerante. Se vê uma família de campo, mas com uma certa aspiração de progresso social.

 

Pouco tempo depois do dia da foto, enquanto Joaquim descarregava sacos de arroz de um carro de boi no porão da fazenda, ele sofreu um ataque cardíaco fulminante. Longe de assistência medica ele morreu, e provávelmente foi enterrado no cemitério de Santa Rosa dos Dourados. Tinha somente 28 ou 30 anos de idade. A doença de Chagas, a qual é transmitida pelo barbeiro e ataca ao coração ou esófago, era endémica naquela parte de Minas Gerais. É provável que foi a causa da sua morte.

 

Quando visitamos Santa Rosa em 2007, tivemos como guia um senhor que se chama Zé de Iolanda, quem nos levou a uma fazenda que fica a uns dois quilômetros da aldeia – uma fazenda que também tem o nome de Santa Rosa, se bem que é outra de onde Joaquim e sua família moravam. A intenção foi de conversar com um velho fazendeiro que talvez lembrasse de Joaquim, mas infelizmente ele estava viajando. Conversamos com seu filho, numa casa vizinha. Dona Terezinha acha que o seu pai foi criado por um homem chamado ‘Limiro’ e que na casa dele preparavam-se marmelada. Resulta que o nome do homem com quem estávamos visitando era Limiro, e que Limiro era também o nome do seu avô, mas ele não tinha conhecimento que seu avô tivesse criado nenhum rapaz com nome ‘Joaquim Pereira da Silva’. Sr. Limiro tinha uns 60 anos de idade, um homem inteligente e de um bom nível cultural. Morava junto com sua esposa e um filho que tinha algumas dificuldades, e tem uma filha que vive bem em São Paulo. Não conseguimos acesso aos livros do cartório, porque a pessoa responsável, Iolanda, estava em Coromandel. Nem conseguimos olhar os registros da igreja, porque era sábado e a igreja estava fechada. Sr. Limiro nos prometeu olhar os registros, tanto da igreja como do cartório, para ver se tinha algum nome da família Pereira da Silva, mas não teve nenhum resultado. É melhor nos mesmos da família examinar estes registros em alguma oportunidade futura.

 

Dona Terezinha diz que ela tinha três anos quando o seu pai morreu no porão da fazenda Sta. Rosa, e a família ficou de repente sem meios de apoio. Seu avô materno, Pedro Alexandro Rodrigues, sempre conhecido como ‘Pai Pedro’ na família, mais para os demais como 'Pedro Caçamba', ficou responsável pela família. Ele morava perto de Monjolinho de Minas, uns noventa quilômetros ao leste de Sta. Rosa, no distrito de Lagoa Formosa. Rápidamente ele vendeu os pertences da família e arrumou uma mudança para um lugar chamado ‘Lajeado’, perto de onde ele morava naquela época.

 

Algumas pessoas dizem que Pai Pedro era um homem duro – até que era jagunço. De qualquer maneira, ele arrumou trabalho para sua filha, Maria Cândida, na Fazenda dos Leontinos, e a família morava perto. Maria Cândida trabalhou para Dona Leontina Aventura, e virou-se empregada de confiança dela; ajudava a organizar eventos importantes.

 

Por volta de 1946 Mariazinha – Mazinha – casou com João Pachola – conhecido como João Magro (ou João Magrinho). Ela tinha apenas uns treze anos de idade, enquanto ele era um homem bastante mais velho. Aparentemente o casamento foi na igreja de Lajeado. Depois, Mazinha e João Magro foram morar e trabalhar na adjacente Fazenda do Juca Bem.

 

Trágicamente Maria Cândida morreu, provávelmente em 1948, e foi sepultada num cemitério local o qual até hoje existe e está bem cuidado. Tem uma capela e um muro pela periferia. Depois da morte da mãe, d. Terezinha e os seus três irmãos, todos jovens, foram morar com Mazinha e João Magro na Fazenda do Juca Bem. Apesar do fato de que eram órfãos, viviam bem, e tanto d. Terezinha como Geraldo tem boas memorias daqueles dias. Infelizmente a sua estadia na fazenda não durou muito.

 

Juca Bem, Lajeado e Fazenda dos Leontinos ficavam muito perto da Fazenda Baú – onde estavam morando os irmãos Leopoldino. De fato, o cemitério onde foi enterrado Maria Cândida era conhecido como Cemitério do Baú.

 

Foi talvez com sua mãe que Mazinha aprendeu a costurar. De qualquer maneira, enquanto vivia em Juca Bem ela costurava para a gente da vizinhança, e assim a sua família ficou conhecendo os filhos de Maria Francisca Cupim.

 

Mazinha e João Magro nunca tiveram filhos – talvez pelo fato de que ele era bem mais velho do que ela. Um dos fazeres de Mazinha era lavar a roupa da família no córrego. Mais que uma vez, quando procuravam por ela, só encontravam a bacia e as roupas. Os boatos diziam que ela tinha um caso com o filho do patrão da fazenda onde moravam. De uma forma ou outra, eram grandes as consequências do acontecido, resultando no abandono de toda a família de Minas Gerais. Dizem alguns que Pai Pedro ameaçou matar João Magro, Mazinha e o suposto amante, por ter desonrado o nome da família. Outros dizem que Pai Pedro ficou muito abatido quando descobriu que ia perder os seus netos. Agora é impossível saber a verdade.

 

Mineiros viram Goianos

Como se diz anteriormente, a colonização do Brasil partia da costa e sempre tinha uma tendência de penetrar ao interior do território. O que mantinha esta tendência foi a procura de minerais (especialmente ouro e diamantes) e de terras boas para agricultura. Ao noroeste de Minas Gerais, ocupando o coração do Brasil, ficava o estado de Goiás com sua velha capital, que naquela época se chamava Goiás Velho (atualmente Cidade de Goiás).

 

Em 1930 o governo do então presidente Getulio Vargas tomou umas decisões para impulsar a ocupação do centro do país na denominada ‘marcha para o oeste’, procurando elaborar um discurso e propaganda a respeito destas regiões de fronteiras, atraindo os  mineiros, que imbuídos neste espírito de ‘corrida’, migram-se para Goiás e passaram a cultivar e comprar terras[8].

 

Ficou evidente que Goiás Velho estava muito afastada da parte mais produtiva do estado e em 1933 surgiu um projeto do governo federal de construir uma nova capital perto da velha vila de Campinas. Seria uma capital planificada e bonita, mas que dava pouca consideração às necesidades do povo humilde que iam ser a mão de obra. O nome da nova cidade seria ‘Goiânia’; até hoje, Goiânia cresce e prospera.

 

Por volta de 1950, João Magro e sua esposa, e os irmãos dela, empreenderam a ‘marcha para o oeste’, viajando por caminhos de terra em carroceria de um caminhão. Foi uma viagem cansativa que ficou na memoria de todos.

 

Não se sabe porque a família foi parar numa fazenda perto da povoação que se chamava Xixá, situada a sessenta quilómetros ao norte de Goiás Velho; pode ser que o dono fosse um Minero que os convidou para trabalhar nas terras novas que ele tinha comprado, ou talvez tivessem amigos que já moravam ali. O que iria ser Xixá já existia em 1912, mas a povoação em si foi fundada, como Goiânia, somente em 1933 quando a população aumentava em consequência da politica varguista. Em 1943 o nome mudou para Itapuranga.

 

A fazenda onde os novos imigrantes se estabeleceram pertencia a Alvino Pereira Peres e Luiza Onesta Ferreira, e estava perto do Rio Canastra. O fazendeiro tinha dois filhos, Benedita, que nasceu por volta de 1947 e Carlos, nascido em 1950. Inicialmente d. Terezinha e seus irmãos moravam juntos. Zezé, o irmão mais velho, mas com apenas dezesseis or dezessete anos de idade, era o responsável da família. João Magro e Mazinha moravam perto. Dona Terezinha tinha mais ou menos doze anos, e era responsável pelo trabalho doméstico da casa. Dizem que lhe obrigavam a trabalhar duro o dia todo, preparando comida, cozinhando, limpando, lavando a roupa, e assim por diante, para cuidar dos três irmãos.

 

Coincidência ou não, as duas famílias, Pereira da Silva e Leopoldino, foram de Minas Gerais para Goiás na mesma época. No mínimo, elas participavam no movimento mais amplo de colonização de Goiás, e é possível até que foram levados pelos mesmos Mineiros da zona de Monjolinho que tinham adquirido terras perto de Xixá. Foi pouco tempo depois de fazer o registro do seu nascimento no cartório de Lagoa Formosa, no dia 24 de junho de 1950, que Sr. José abandonou Minas Gerais; sua irmã mais velha, Diomara, também foi para Goiás e ela morava perto da família Pereira da Silva. Mais tarde foram os outros irmãos de Sr. José.

 

Sr. José e Zezé eram muito amigos desde Minas Gerais e se encontraram novamente em Goiás. Era uma zona fronteiriça, primitiva e violenta, onde a lei praticamente não funcionava. As cidades tinham um excesso de bares e bêbedos; os jovens andavam a cavalo, e de noite frequentavam à ‘zona vermelha’– arriscando sua saude; soavam tiros de revolver pelas ruas; onde tinha festa, havia sempre a possibildade de invasão por jovens que só queriam brigar.

 

‘A vida cotidiana dos moradores era marcada por festas nas fazendas, tanto de cunho religioso e como de ações dos leigos, lembremos aqui dos mutirões e tradições para ajudar os vizinhos. No entanto, esta relação de vizinhos não tirava o ar de violência que assolava a região. Muito comum nestas festas acontecerem brigas e mortes, razão pela qual a cidade (de Xixá) ser conhecida como uma terra de matadores.

 

A justiça era marca indelével destes pioneiros, pois os itapurangueses foram conhecidos como violentos. Com o crescimento do vilarejo surgem as ações policiais, esporádicas. Para ter uma idéia a forma de prisão, quando isso acontecia, era colocar o preso amarrado em um pé de bacuri até levá-lo para um lugar ao qual pudesse cumprir a pena do delito.

 

A forma de transporte era feita no lombo de animais: cavalos e burros cargueiros, bem como, de carro de boi que servia como o meio de carregar maior quantidade de mercadorias ou alimentos. As estradas eram abertas com foices, machados e facões fazendo-se as trilhas nas matas virgens de nosso cerrado. Os rios eram todos abundantes de água, considerando o rio Uru e Canastra, sendo que o último serviu de abastecimento de água para as primeiras famílias do povoado …

 

As primeiras atividades econômicas do antigo Xixá foram ligadas à agricultura – arroz, feijão e milho – que eram transportados pelos tropeiros e carros de bois nas estradas, levantando a poeira das estradas e cruzando os vários vaus da região. Os produtos industrializados eram comprados nas ‘vendas’, tais como: querosene, sal, tecidos, fumo, bebidas e outros produtos básicos que não poderiam ser produzidos pelas pessoas da região.’[9]

 

Perto da fazenda onde morava d. Terezinha, existia outra que pertencia a Zé Amador. Lá tinha uma colónia da propriedade de um tal ‘Modesto’, e entre os moradores havia uma moça que era chamada 'Maricota'. Em pouco tempo Zezé e Maricota se conheceram e no ano 1952 se casaram. Mais ou menos na mesma época o irmão mais jovem de Zezé, Augusto, foi morar em Xixá, e convidou d. Terezinha a ir com ele.

 

Sr. José e d. Terezinha se conheciam quando moravam perto de Monjolinho em Minas Gerais. Sr. José ia à casa de Zezé para bater papo, tomar pinga ou jogar baralho, e d. Terezinha saia de vez em quando da cozinha, talvez com biscoitos ou um bule de café. Sr. José sempre brincava com ela, dizendo que ia esperar ela crescer para casar com ele. Para d. Terezinha, quem já tinha uma irmã que casou aos treze anos de idade – e com um homem bem mais velho – provávelmente a idéia de casar-se com Sr. José parecia uma boa opção.

 

Assim em Setembro de 1952, Sr. José e d. Terezinha se casaram na igrejinha de Xixá; as testemunhas eram João Lopes da Silva (o marido de Diomara) e Zezé. Dona Terezinha tinha só quatorze anos de idade, mas disse que tinha dezoito, a idade mínima para casar sem autorização dos pais. Tanto o noivo como a noiva diziam que moravam em ‘Buqueirao’ (talvez mais corretamente ‘Boqueirao’), o que pode ser o nome da fazenda onde foram trabalhar quando saíram de Minas Gerais.

 

A mudança de Augusto para Xixá foi com motivo de aprender ser alfaiate, trabalhando para Sr. Enoque, um alfaiate muito conhecido na povoação naquele tempo. Augusto aprendeu rapidamente e, em 1955, já habilitado na profissão, casou-se com Maria Madalena, uma professora de ensino primário. Foram morar e trabalhar em Itapirapuã, ainda em Goiás, uns 100 km ao sudoeste de Itapuranga. Maria era natural de Areado em Minas Gerais e se lembra que a viagem para Goiás levou vinte e dois dias em carro de boi! Enquanto moravam em Itapirapuã, em 1957 e 1958, nasceram os seus primeiros dois filhos.

 

Sr. José e d. Terezinha também iniciaram a sua família. No ano 1953 nasceu uma filha, Sônia. Dona Terezinha era inocente em tudo e, ainda gravida há vários mêses, não tinha ideia de como o nenê ia sair de sua barriga. Achava que seria talvez pelo umbigo. Quando alguém lhe explicou a verdade, não acreditava! Tinha apenas quinze anos de idade.

 

Nilma, sua segunda filha, nasceu em 1955. Tanto Sônia como Nilma nasceram em casa em foram batizadas em Xixá. Para Nilma, os padrinhos eram Alvino Pereira Peres e Luiza Onesta Ferreira, os donos da fazenda onde os pais trabalhavam. O ano seguinte, Mazinha, quem aparentemente sofria de epilepsia, adoeceu e entrou em coma. A única pessoa capaz de comunicar com ela era Sr. Enoque, o alfaiate, considerado um médium. Mazinha morreu pouco tempo depois, em Xixá[10].

 

A família Leopoldino mudou-se de Xixá pouco tempo depois; em 1957 já morava na aldeia de Morro Agudo de Goiás, uns 30 quilômetros ao norte de Itapuranga. Foi ali, no janeiro do seguinte ano, que nasceu Ílva de Fátima, sua terceira filha. No novembro daquele ano passou pela região uma epidemia de coqueluche que atacou tanto à Nilma como à Ílva. Depois de momentos de alarme, Nilma resistiu, mas a pequena Ílva morreu e foi enterrada no local. A família, depois, juntou-se com Augusto em Itapirapuã e foi naquele local que nasceu o próximo filho, Francisco, em 1958.

 

Foi talvez em Itapirapuã que Augusto ensinou a profissão de alfaiate a Sr. José. A aquisição desta habilidade permitiu a família Leopoldino deixar de ser lavradores de terra, escapar da roça, e morar na cidade, onde os filhos teriam acesso a ensino escolar, e assim ter melhores possibilidades na vida.

 

A família fez outra mudança pouco tempo depois, porque em 1960 nasceu o próximo filho, Cilho, na cidade de Jussara, que fica a uns trinta quilómetros ao oeste de Itapirapuã[11].

 

O Cenário da Vida

Disse William Shakespeare:

 

Todo o mundo é um palco

E os homems e mulheres apenas atores;

Tem suas entradas e saídas,

E cada um, na sua vida, representa várias personagens.

 

No mesmo espírito Silvio Caldas escreveu:

 

‘Minha vida era um palco iluminado...’

 

O fato é, que tudo que nos fazemos, em cada dia que vivemos, acontece dentro de um mundo de eventos que, de uma forma ou outra, é o cenário de nossas vidas. Devemos examinar, pelo menos um pouco, qual era o cenário de Sr. José e d. Terezinha durante os anos em que suas vidas estavam tomando o rumo definitivo.

 

Brasil era uma colónia portuguesa em que o estado era o dono de toda a terra. O rei, e posteriormente o governo, dava terras aos favorecidos para usar, desenvolver e, eventualmente, vender. Os princípios, que a terra é a base fundamental da riqueza, e que o dono da terra é o Senhor de tudo que lhe pertence, constituem uma base da sociedade brasileira. Com grande frequência eram os fidalgos, os proprietários de terras e os latifundiários que mandavam na legislação, no desenvolvimento e nos direitos – ou falta de direitos – dos demais. Ainda depois da abolição da escravatura, os simples trabalhadores não tinham outro jeito que adaptarem-se à realidade de um sistema que as vezes era paternalista, outras vezes quase feudal.

 

Sr. José nasceu em 1928, no início de uma grande crise económica mundial. O preço internacional de café caiu fortemente, o que resultou numa situação politica precária para o país. Em 1930 teve um golpe do estado, e a emergência de Getúlio Vargas, quem, de uma forma ou outra, dominou a politica brasileira durante os seguintes vinte e quatro anos. Já mencionamos a iniciativa varguista da ‘marcha ao oeste’.

 

Vargas era um operador muito hábil, que fazia e desfazia alianças politicas conforme a conveniência do momento. As vezes era o Ditador do país, outras vezes era o Presidente eleito democraticamente. A base de sua política era nacionalismo, populismo, relações intimas com os chefes militares, e estreitas alianças e contatos pessoais com os poderosos proprietários de terra nos estados mais relevantes, especialmente Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Existia um paralelismo entre Vargas no Brasil, Perón na Argentina, Salazar no Portugal, Franco na Espanha e Mussolini na Itália. Todos eram nacionalistas autoritários e anti-comunistas. Tinha sempre alguma coisa do que chegou a ser chamado por Mussolini ‘fascismo’. Depois que Vargas assumiu o papel de ditador em 1937, ele controlou a imprensa, aboliu os partidos políticos e prendeu aos dissidentes.

 

Nos anos antes que a Segunda Guerra Mundial, Vargas habilmente evitou associar-se claramente ou com Alemanha, ou com os Estados Unidos, mas eventualmente optou para o lado dos aliados contra Hitler, e enviou unidades das forças armadas brasileiras para lutar junto com eles na Itália.

 

Depois da guerra, Vargas foi derrubado pelos militares, mas voltou ao poder como Presidente, nas eleições de 1951. Então, ele implementou várias medidas de legislação social, incluindo o estabelecimento de um salário mínimo, mas nas áreas mais afastadas do país não foi sempre respeitado. Em 1954 Vargas ficou implicado numa tentativa contra a vida de Carlos Lacerda, um oponente politico poderoso, e acabou suicidando-se com um tiro de revolver. Seguiram três presidentes que duraram pouco, até a eleição de Jucelino Kubitschek em Janeiro de 1956, conforme descrito mais para frente.

 

Isso, então, é um pouco do cenário das vidas de Sr. José e d. Terezinha. Começa desde quando nasceram, passa por suas juventudes em Minas Gerais, e vai até o momento que, depois de se casarem, deram início à sua própria família em Goiás. Foi um tempo de nacionalismo, quando os poderosos donos de terra e os políticos locais ainda tinham muita influência. Os trabalhadores rurais, como eram os protagonistas desta história, eram muito pouco respeitados. 

Brasília

Enquanto Sr. José e sua família andavam de um lugar a outro no oeste de Goiás, iam acontecendo grandes eventos a uns 300 km ao leste. Em 1891, na assembleia nacional, fez-se uma proposta de trasladar a capital brasileira de Rio de Janeiro para um lugar mais central no pais. Em 1956, no início de seu mandato de quatro anos, o novo presidente, Juscelino Kubitschek, iniciou o grande projeto. A nova capital, Brasília, foi inaugurada no dia 21 de abril de 1960. Brasileiros por milhares, e depois dezenas de milhares, se foram à cidade nova, buscando uma vida melhor, e para ajudar na sua construção.

 

Poucos mêses antes da inauguração, Augusto e Maria decidiram ir-se também à nova capital. Viajaram em caminhão, em janeiro, vendendo galinhas pelo caminho. Em fevereiro foram a Taguatinga em busca de terra, e depois foram morar na Cidade Livre (Núcleo Bandeirante). Mais tarde mudaram para Vila Planalto. No início, Augusto trabalhou como contramestre para um alfaiate que era bem conhecido na área, Sr. Itajubí. Depois, em Vila Planalto, ele inaugurou sua própria empresa, ‘Alfaiataria Silva’, que ia se desenvolvendo muito bem. Maria ajudava seu marido enquanto sua mãe, Carolina Marra da Silva, cuidava dos três filhos, o último dos quais nasceu em Brasília em 1961.

 

Alfaiataria Silva ia tão bem que Augusto convidou Sr. José e d. Terezinha para irem-se de Jussara para Brasília, e parece que a mudança aconteceu nos fins de 1961. Ainda que eram casados na igreja, Sr. José e d. Terezinha não tinham registrado seu casamento no cartorio de registro civil, e d. Terezinha insistiu em retificar a situação antes de mudar para a nova capital. Assim que no dia 17 de agosto de 1961 foram feitos tanto o registro do casamento, como os registros de nascimento de seus quatro filhos.

 

Chegando em Brasília, em algum momento a família Leopoldino morou em Velha Cap, onde Nilma lembra que ela tinha um ratinho branco de estimação. Ela guardava a jaula dele perto de onde dormia, e uma manha descobriu que ela tinha rodado na cama durante a noite e matou o bichinho. Ficou muito triste. A família foi morar em forma mais permanente na Vila Planalto, e ali foi que, com a ajuda de Augusto, Sr. José abriu sua própria alfaiataria. Também foi nessa época que Sr. José aprendeu a fazer paletós. Sr. José comprou uma casa de três cómodos e a alfaiataria ocupava, modestamente, um espaço na frente da casa, debaixo de um toldo.

 

Aqueles tempos eram bons para negócios, e o dinheiro corria livremente. Augusto tinha uma dezena de funcionários, dirigidos por um contramestre de obras. Seu irmão e cunhada, Zezé e Maricota, quem moravam no Faina (ao oeste de Itapuranga) também foram para Brasília e prosperaram. Os dois irmãos compraram chácaras, lado ao lado. Zezé morava na sua chácara, e João Magro cuidava da chácara de Augusto. Toda a família ia no Volkswagen Kombi de Augusto para passar os fins de semana na chácara dele. Ai desfrutavam da comida caseira, faziam pamonha e farinha de mandioca, e assavam carne, enquanto a criançada brincava em um ambiente saudavel.

 

Vila Planalto era uma povoação primitiva – uma invasão de terras – e as casas eram precárias, feitas de madeira e papelão, forradas com jornais e outras matérias improvisadas. Existia só uma torneira para toda a área, e havia de comprar a água. Porem, quem tirava água depois da meia noite não pagava, então assim faziam os Leopoldino. Havia muita violência, e problemas com bêbedos, prostituas, brigas com facas e o barulho de tiros de armas de fogo.

 

Foi enquanto moravam em Vila Planalto que Shirley, o penúltimo filho de Sr. José e d. Terezinha, nasceu, no início de 1962. Dona Terezinha achou o nome dela num jornal que forrava a casa – num artigo sobre Shirley MacLaine, uma atriz Americana que fazia sucesso naquela época. O casal fez o parto na própria casa, sozinhos, depois de preparar lençois limpos e desinfetar uma tesoura para cortar o cordão umbilical. Augusto chamou à sua mae, e foram correndo para ajudar, mais chegaram tarde – a Shirley apareceu sozinha, rapidinho e sem problemas.

 

Por causa da violência, a família vendeu a casa em Vila Planalto e mudou para Taguatinga onde alugaram uma casa. Depois, conseguiram autorização para construir uma casa própria no Setor QNH 10, o que lograram em quatro mêses. Foi feita de adobe por Sr. Jose, mas com a ajuda de Nilma e Sônia, com telhado de Eternit.

 

Durante os primeiros anos em Brasília, d. Terezinha estava constantemente ocupada fazendo roupa, porque serviço não faltava. Ela tambem fazia quitandas e café, que Sônia e Nilma levavam às obras de construção, para vender aos trabalhadores, e assim ganhar um dinheirinho extra. Além disso, d. Terezinha fazia feira de armarinhos uma vez por semana; a mercadoria era transportada numa caixa de papelão na frente de uma bicicleta cargueira, levada por Nilma, uma moça de apenas uns 6 ou 7 anos de idade, com d. Terezinha sentada precáriamente na garupa.

 

Em 1963 foi evidente que Augusto não estava bem de saude. Ficou extremamente fraco e descobriram que ele tinha a doença de Chagas, em que um parasito ataca ao coração ou ao esôfogo. Não tinha tratamento e em pouco tempo Augusto morreu, à idade de 29 anos, deixando Maria para cuidar das três crianças. Em 1964 ela casou de novo. O segundo marido era Filemón Gomes de Alencar, um Baiano quem trabalhava na alfaiataria. Em março de 1965 Maria deu a luz a um casal de gémeos, no Hospital São Vicente de Paula em Taguatinga. Tinha uma companheira, porque d. Terezinha também estava confinada e o seu ultimo filho, Silvio, nasceu no próximo dia. Dos filhos de d. Terezinha, Silvio foi o único que nasceu no hospital – e foi o parto mais difícil! Maria e Filemon tiverem dois outros filhos, em 1966 e 1968.

 

Depois do fim da presidência de Juscelino Kubitschek, em janeiro de 1961, aconteceu um novo desequilíbrio na politica brasileira. O novo mandatário era Janio Quadros, mas rapidamente perdeu apoio, e pediu demissão depois de oito mêses. Naquela época, o sistema brasileiro elegia o Presidente e o Vice Presidente por votos separados, e Quadros se encontrou obrigado a trabalhar com João Goulart como seu Vice – mais Goulart era o seu inimigo político. Depois da resignação de Quadros, Goulart subiu à presidência. Não era um homem sem experiência, pois ele tambem foi o Vice Presidente durante o mandato de Kubitschek. Goulart ficou na presidência durante dois anos e meio, mas o seu governo ia cada vez mais à esquerda, e perdeu o apoio da classe media.

 

Os militares do país ficaram altamente preocupados com a tendência esquerdista de Goulart e, no início de abril de 1964, fizeram um golpe de estado. Iam ficar no poder durante os próximos vinte e um anos do desenvolvimento do Brasil.

 

A confusão de 1963-64 deixou a economia de Brasília paralizada; não tinha trabalho. A família Leopoldino passou fome e então parece que d. Terezinha lavava roupa e fazia faxina para ganhar dinheiro. Pode ser que também foi durante este periodo que d. Terezinha dava assistência a um centro comunitário local, dirigido por Irmã Ambrosina, e em troca ganhava cestos de comida procedentes de uma fundação Americana. Mais ou menos nesta época, Sr. José conseguiu trabalho com a prefeitura, de lixeiro. Também conseguiu algum trabalho confeccionando uniformes para uma empresa de ónibus, chamada TCB (provavelmente Transportes Coletivos de Brasília).

 

As chácaras de Zezé e Augusto não tinham toda a documentação legal, e para evitar a perdida das mesmas, foram vendidas rápidamente, abaixo do valor real. João Magro foi morar com Terezinha no QNH 10. Zezé e Maricota foram morar em QNH 8, e depois voltaram para Faina onde Zezé trabalhou como carpinteiro. Aproximadamente em 1973, Zezé morreu da doença de Chagas, como seu irmão Augusto.

 

Além de ter que enfrentar os problemas políticos e económicos em Brasília, nem d. Terezinha nem Sr. José estavam muito bem de saúde, e se encontravam sem outro recurso que vender, tambem barato, sua casa em Taguatinga. Na esperança de achar circumstâncias melhores, abandonaram Brasília e foram morar em Goiânia. 

Goiânia

Chegando em Goiânia os Leopoldinos foram morar de aluguel no Setor Fama, uns cinco quilómetros ao noroeste do centro da cidade. Sr. José andava vendendo frutas e verduras nas feiras, mas não ganhava o suficiente para as necessidades da família. Decidiram voltar para Jussarra onde ele estabeleceu um bar, perto da praça, mas tambem não teve éxito e uma vez mais a família decidiu tentar a sorte em Goiânia. Isto foi tudo em 1966.

 

De volta para Goiânia, Sr. José alugou um cómodo no Setor Pedro Ludovico, mais ou menos cinco quilómetros ao sul do centro da cidade, e, muito apertado, ali morava toda a família – os pais e seis crianças. Sônia e Nilma estudavam no Colégio Dom Abel enquanto os seus pais trabalhavam em casa, costurando para Confecções Iram Limitada. A fabrica da empresa estava situada no Setor Dergo, uns sete quilómetros ao oeste-noroeste do centro. Sr. José e d. Terezinha tinham duas máquinas de costura em casa, e cortavam suas peças em cima de uma mesa grande que ocupava o centro do comodo. De noite, a mesa era usada como cama, com um colchão em cima e outro em baixo, onde dormiam algumas das crianças. Para preparar comida, a família comprava serragem de carpinteiros da vizinhança, a qual compactavam com um pouco de água numa lata de querosene, que servia de fogão. Foi uma existência muito precária.

 

O que os pais ganhavam era insuficiente para as despesas da família, mas Sr. José conseguiu arrumar trabalho com Manuel de Assunção, o dono de Confecções Iram, para Sônia e Nilma, dentro da fabrica. Sônia tinha treze anos, Nilma onze. Pensam bem vocês que militem contra trabalho de criança; se não fosse para Manuel de Assunção, a família Leopoldino tinha passado muita necessidade. Com tempo, a empresa chegou a assinar as carteiras de trabalho das duas moças, no caso da Nilma em março de 1969.

 

Foi nesse período que a família alugou um barracão nos fundos da casa de Dona Persília e Sr. Gerônimo Tibúrcio. O casal tinha um único filho, Carlos. Esta família tratou muito bem aos Leopoldinos.

 

Já com Sônia e Nilma ganhando dinheiro, a situação da família melhorou bastante, e Sr. José decidiu que faria mais sentido, em vez de pagar aluguel, comprar um lote e construir a casa própria. Ele comprou um lote residencial no Setor Serrinha, que fica ao oeste do Setor Pedro Ludovico, mas a família não tinha dinheiro suficiente para construir sua casa própria.  Aí, d. Terezinha foi à obra de uma empresa construtora e conseguiu umas tábuas de andaimes usados, e uns sacos vazios de cimento. Com este matérial a família conseguiu construir uma casa de três comodos e um banheiro. O telhado foi feito com os sacos de cimento que, uma vez molhados, secavam e davam uma cobertura mais ou menos impermeável. A água para uso domestico saia de uma cisterna que abriram no lote, e a luz era de lamparinas a querosene. Mais tarde, feita alguma poupança, compraram tijolos e fizeram uma casa melhor, de tipo ‘L’ com telhado de uma água. Era de dois quartos, sala e cozinha, e tinha eletricidade. A vida estava melhorando!

 

Como o nome sugere, Setor Serrinha fica num alto, e, hoje em dia é um setor nobre, com propriedades caríssimas, mas quando a família Leopoldino morava lá ficava afastado de tudo, e andar sozinho, especialmente a noite, era muito perigoso. Sônia e Nilma tinham que pegar dois ónibus para chegar ao trabalho no Setor Dergo, o que era cansativo, bastante caro, e potencialmente perigoso. Ainda eram crianças. Depois do trabalho, iam para a escola no Setor Pedro Ludovico, e voltavam para casa sozinhas, a noite, por um caminho deserto.

 

Após algum tempo, Sr. José e d. Terezinha decidiram que seria melhor para todos alugar uma casa perto do Setor Dergo. Assim fizeram, poupando o dinheiro das passagens de ônibus, diminuindo o tempo de viagem das meninas, e eliminando o risco às suas pessoas voltando à casa de noite. A nova moradia era uma casa no Setor Santa Helena, em Campinas. A Nilma lembra que a vida em Sta. Helena era bem mais fácil do que na Serrinha. No entanto a casa da Serrinha foi posta para alugar.

 

Foi enquanto ela estava trabalhando na Confecções Iram que a Sônia começou a namorar com um colega da fabrica, José Divino – ‘Zezão’. Os dois se casaram em março de 1971 e ficaram morando com os seus pais. O primeiro filho deles nasceu no final do ano, no hospital Coração de Jesus em Campinas. Depois do nascimento, Sônia e a família foram morar, durante um período, na cidade de Acreuna, um pequeno centro de agricultura que fica a uns 150 km ao sudoeste de Goiânia. Sr. José, d. Terezinha e os seus quatro filhos menores também foram para lá, para fazer a colheita de algodão. No entanto a Nilma ficou em Goiânia, passando a morar com Dona Benigna e Zica, a mãe e irmã de Zezão. Ela continuou trabalhando na Confecções Iram e estudando no Colégio Assis Chateaubriand em Campinas, no periodo noturno.

 

Quando a Nilma, aos onze anos de idade, começou a trabalhar na Confecções Iram, ela atrapalhava mais do que ajudava. Seu trabalho era atender e ajudar às costureiras, dando assistência no que elas necessitassem do almoxarifado. Era tanto o seu entusiasmo que corria e pulava por cima de tudo que encontrava na sua frente, caindo por cima de montes de calças e camisas amontoadas ao lado das máquinas. Finalmente o seu patrão chamou ao Sr. José e disse que não podia mais ter a Nilma trabalhando para ele, porque era muito jovem e imatura, e poderia causar acidentes. Porém o Sr. José prometeu falar com ela, e assim conseguiu evitar o seu afastamento, o que foi uma boa decisão. Nilma era muito hábil e rápidamente aprendeu a trabalhar com todas as máquinas industriais que usavam, não importava o numero de agulhas que tivessem. Quando ela pediu contas do emprego no dia 3 de agosto de 1972, ela era substituta de férias em qualquer departamento da fábrica.

 

No final da colheita de algodão de Acreuna, Sr. José, d. Terezinha e os quatro filhos voltaram para Goiânia, e foram morar na casa no Setor Serrinha novamente. Foi nesta epoca que a d. Terezinha teve um derrame cerebral, e, no dia 10 de junho de 1972 foi internada na Clínica Isabel no Setor Sul de Goiânia. Ficou nesta clinica uns três mêses. Sr. José foi para Brasília, trabalhando de alfaiate com seu cunhado Geraldo, quem tinha estabelecido a sua própria firma. Nilma ficou em Goiânia, a cargo de seus quatro irmãos. Ela saiu da Confecções Iram para cuidar dos irmãos, continuava com os seus estudos e visitava a sua mãe na clínica duas vezes por semana. Mais uma vez, foi uma etapa difícil para a família.

 

Geraldo teve bastante êxito em Brasília e além de dirigir sua alfaiateria, ganhou dinheiro na loteria, que melhorou sua situação. Ele comprou mais máquinas de costura e ampliou o seu negócio, mas depois faltou trabalho e teve que fechar tudo. Depois de um periodo, ele abriu novamente.

 

Quando d. Terezinha teve alta da Clinica (provávelmente quase no fim de 1972), a família se juntou com o Sr. José em Brasília. Foram morar num barracão na frente da casa de Zezé, o irmão de d. Terezinha, na QNH 8 em Taguatinga. Zezé e sua família moravam no Faina na época. Sr. José continuou trabalhando para Geraldo e d. Terezinha costurava para ele em casa. Em maio de 1973 Sônia, que ainda morava em Goiânia, teve gémeos, e d. Terezinha ficou ajudando ela por um tempo. Tem uma foto em Brasília poucas semanas depois do nascimento dos gemeos, quando Sônia e sua família visitaram os seus pais em Brasilia.

 

Em março de 1973, a Nilma foi contratada por um amigo de Geraldo, o qual era dono de uma firma chamada Comercio e Industria Tecidos Martins Limitada. A empresa tinha uma fábrica de roupa em Taguatinga e uma loja de tecidos em Goiânia. Poucos mêses depois, o dono decidiu transferir a firma para Goiânia. Ele montou a fábrica nova na Avenida Mato Grosso em Campinas em dezembro de 1973, levando a Nilma como gerente de operações, e cinco outros funcionários de confiança, para dar início ao novo negócio. O resto da família, incluindo Geraldo, mudaram uma vez mais para Goiânia. A casa na Serrinha continuava alugada e a família foi morar de frente à fábrica, na Avenida Mato Grosso, com o aluguel pago pela empresa.

 

No entanto a Nilma tinha bastante responsabilidade como gerente de produção na fábrica, ela estava muito inquieta e decidiu fazer um curso de datilografia, com a esperança de encontrar trabalho de escritorio. Sr. José no entanto decidiu comprar outra vez um bar, na Rua Pouso Alto em Campinas, mas uma vez mais não deu certo. Geraldo deu início a outra alfaiataria, com um ponto na Rua 4 no centro de Goiânia, perto da loja de Tecidos Martins, e, depois do episódio do bar, Sr. José voltou a trabalhar com ele.

 

Foi também nesta época que a família decidiu vender a casa da Serrinha. Nilma foi discutir o assunto com uma imobiliária na Rua 7, no centro da cidade. Durante a conversa, ela também perguntou se não tinha uma oportunidade de trabalho de escritório. O resultado foi um acordo para a venda da casa e uma oferta de trabalho como secretaria. Depois de pedir demissão em Tecidos Martins ela começou sua nova carreira em maio de 1974. Em poucos mêses, através de uma recomendação de um colega de serviço na nova empresa, a Nilma recebeu uma oferta de um trabalho melhor numa das maiores, e mais prestigiadas, imobiliárias de Goiânia, que se chamava ‘SIMA Imobiliaria e Administradora’. Ela fez a transferência em julho de 1974. Como tinha um emprego fixo, conseguiu alugar, para a família, uma casa na Avenida Sergipe em Campinas. Nilma continuou trabalhando na SIMA e estudando à noite no Colégio Estadual Professor Pedro Gomes em Campinas.

 

Em agosto de 1975 a Nilma conheceu o representante de um cliente da SIMA que estava alugando uma casa/escritório para as operações da sua empresa, recém chegada em Goiânia. Ele se chamava Philip e iria ser o seu futuro marido. Depois de um namoro rápido, se casaram em Abril de 1976.

 

Já em 1975, d. Terezinha sabia que sofria da doença de Chagas, que não tinha tratamento, e portanto esperava morrer em pouco tempo, como aconteceu com os seus irmãos Augusto e Zezé. Afortunadamente, em Goiânia mesmo, trabalhava o médico, Dr. Anis Rássi, que integrava um grupo internacional de pesquisa de Chagas. O grupo estava fazendo testes com drogas experimentais, com o propósito de matar ao parasito que fazia os estragos no corpo da vítima, se bem que não seria possível eliminar os estragos já causados. Dona Terezinha conseguiu entrar no grupo de Dr. Rássi, e uma das drogas funcionou, poupando sua vida. Esta droga, posteriormente, foi comercializada e já salvou muitas vidas. Mais tarde, descobriram que tanto Geraldo como Zezão sofriam de Chagas, e também foram tratados a tempo, com o mesmo médico. Com certeza, não foi fácil para d. Terezinha adaptar-se, psicologicamente, à sua nova realidade – que ia viver e não ia morrer jovem.

 

De volta para Goiânia, Sr. José e d. Terezinha se inscreveram para uma casa popular do governo com a ‘Cohab’. Mais ou menos no início de 1978 descobriram que iam receber sua casa propria, recem construída, no novo Setor Itatiaia de Goiânia. Itatiaia ficava longe de Campinas e d. Terezinha chorou quando chegou a hora da mudança; ela gostava muito de Campinas. As novas casas tinham um financiamento que substituía o aluguel com uma hipoteca economica de vinte anos. Assim, os moradores passariam a ser proprietarios das mesmas.

 

Em 1976, Sônia, Zezão e os três filhos moravam num cortiço insalubre em Campinas, um grupo de uma dezena de comodos com uma só torneira de água. Sr. José e d. Terezinha conseguiram construir, no fundo da casa nova da Itatiaia, um barracão de três cômodos. Sônia e sua família foram morar la por volta de 1979. Mais tarde conseguiram uma casa diretamente em frente à casa de Sr. José e d. Terezinha, e ali moravam durante muitos anos. Sr. José trabalhava com Geraldo no centro de Goiânia e d. Terezinha ficava em casa costurando aparentemente sem parar. Ela sempre tinha panelas grandes em cima do fogão, cheias de feijão, arroz, um pouco de carne, e talvez legumes e verduras. Entravam constantemente os seus filhos, netos, genros, noras e outras pessoas, pegavam um prato e colher ou garfo e se serviam à vontade. Ninguém era recusado, todos se sentiam em casa mas poucas vezes agradeciam. O que pagava era o amor da família.

 

Não obstante as dúvidas iniciais de d. Terezinha, os Leopoldinos se adaptaram muito bem na Itatiaia, e viveram contentes. Faziam uma parte importante da comunidade, mas a vida não foi só de sol – teve sombra também. Apesar disto, acredito que o balanço foi positivo. Em 1980 d. Terezinha conheceu Inglaterra e Portugal, quando acompanhou o nascimento da uma neta, e em 1986 tanto ela como Sr. José foram para Chile para o nascimento de uma outra neta.

 

Na medida que envelhecia, a visão do Sr. José foi deteriorando até que não pôde continuar na sua profissão de alfaiate. Então ele encontrou serviço como guarda de segurança num edifício residencial perto da Praça Tamandaré em Goiânia. Sr. José nunca têve o luxo de uma aposentadoria. No dia 27 de julho de 1991 ele morreu de repente na sua casa em Itatiaia, de um ataque cardíaco fulminante. Dona Terezinha continuou morando em Itatiaia.

 

Sr. José era uma pessoa muito boa, se bem que têve poucas oportunidades escolares, e consequentemente poucas possibilidades de melhorar a sua vida. No entanto ele sempre queria entender o que estava acontecendo no país, e no mundo afora. Prestava muita atenção nas notícias – primeiro no rádio quando passava 'A Voz do Brasil', e depois na televisão. Gostava de ler o jornal, quando tinha oportunidade. As vezes, nas horas livres, ele acompanhava aos seus amigos num bar local para um bate papo, uns tragos de pinga e um jogo de baralho.

 

Ele nunca teve a possibilidade de acumular muitos bens materiais. Eu o achava sempre um homem calado e agradável. Durante muitos anos ele ficou encarregado de manter uma pequena quantidade de dinheiro para mim – em caso de alguma emergência da família – e, como o homem de confiança que era, nunca faltava nada. Era um pai e marido responsável, trabalhador, e uma presença solida. Com certeza não sou o único que sente muito, até hoje, sua falta.

 

Esta pagina foi modificada em 29 Jan 2011

 

A foto 'Monjolinho de Minas' vem de http://images.google.co.uk/imgres?imgurl=http://www.monjolinho.co.uk/monj/ig.gif&imgrefurl=http://www.monjolinho.co.uk/monj/Monjolinho-MG.php&usg=__weNqJG28QaG5EvaNnvmDcl2G4SM=&h=271&w=414&sz=46&hl=en&start=2&itbs=1&tbnid=lnrCLNyJoC0p8M:&tbnh=82&tbnw=125&prev=/images%3Fq%3Dmonjolinho%2Bde%2Bminas%26hl%3Den%26sa%3DG%26gbv%3D2%26tbs%3Disch:1

[2] Por exemplo, os jovem filhos de Carlos Santana e Dulcinea Soares (parte da família Leopoldina) se chamam Murillo Santana e Mirella Soares.

[3] Seria interessante procurrar o registro de obito no cartório de Lagoa Formosa.

[4] http://www.pbi.pai.pt/ disponivel via ‘Cyndi’s List’ http://www.cyndislist.com/

[8] O esencial deste parágrafo veio do site http://itapuranga.go.gov.br/historico.html

[9] O esencial destes parágrafos veio do site http://itapuranga.go.gov.br/historico.html

[10] Pode ser que a certidão de obito esteja em Itapuranga ou em Goiás Velho. Vale a pena verificar.

[11] O nome original do povoado era Àgua Limpa, mas em 1950 passou a ser Jussara, uma homenagem à Jussara Marques, a primeira goiana a ser eleita Miss Brasil. No dia 12 de novembro de 1953 Jussara foi elevada a Distrito e no dia 14 de novembro de 1958 ganhou sua emancipação, desmembrando-se da cidade de Goiás Velha: http://www.oestegoiano.com.br/site/index.php/jussara